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Entre
as muitas dívidas que o Brasil possui, é a dívida
ecológica uma mais pesadas por causa das consequências
futuras que comporta. A ecologia é mais que uma técnica
de gerenciamento de recursos escassos. É antes uma arte e um
novo padrão de relacionamento para com a natureza fazendo com
que atendamos de forma suficiente às nossas demandas, sem
sacrificar o sistema-Terra em consideração também
das gerações futuras. No sistema-Terra se encontram
todos os ecosistemas com seus devidos representantes. Mais que se
ocupar com cada um deles, tomado isoladamente, a ecologia se
preocupa com as relações existentes entre eles e todos
com os seus respectivos meio-ambientes visando manter seu equilíbrio
dinâmico, sua preservação e regeneração.
As
dívidas que temos, incidem sobre as quatro vertentes
principais da preocupação ecológica como
veremos.
Temos
uma dívida ecológico-ambiental formada pela
insuficiente qualidade de vida de nossa sociedade. Liquidamos cerca
de 2/3 da floresta atlântica e a cada dia se abatem 100 campos
de futebol da floresta amazônica, quimicalizamos grande parte
dos alimentos, 53% da população não têm
saneamento básico, desperdiçamos quase metade da água
que usamos e a atmosfera de nossas metrópoles é
pesadamente contaminada. Só saldaremos esta dívida com
a moeda do respeito e do cuidado para com a natureza.
Temos
uma dívida ecológico-social formada pela
injustiça social. Estamos cansados de meio-ambiente. Queremos
o ambiente inteiro. Quer dizer, queremos o ser humano inserido nele
criando relações com a natureza e com os demais seres
humanos de forma que possa comer com decência, trabalhar para
viver com qualidade, morar sem risco. Muitos administradores
embelezam as cidades com praças, monumentos e parques mas
mantém um péssimo sistema de segurança,
abandonam os hospitais, descuidam do ensino de qualidade e não
montam uma estrutura adequada de água e esgoto. Aumentam a
dívida ao invés de saldá-la.
Temos
uma dívida ecológico-mental formada pelo
excessivo antropocentrismo que penetrou na nossa mente.
Antropocentrismo é aquela atitude que coloca o ser humano no
centro de tudo e que imagina que as coisas só têm razão
de ser na medida em que se ordenam a ele que pode dispôr delas
ao seu bel prazer. Ora, o ser humano somente entrou em cena quando
99,98% da história do universo e da Terra estava concluida.
Ele é um elo da corrente da vida, embora singular. Há
uma dívida a ser paga pelo sistema escolar que não
soube educar para a alteridade de raças, culturas e religiões.
Dívida a ser paga também pelas igrejas que não
souberam criar a consciência da reverência, da
solidariedade cósmica e da responsabilidade pelo futuro comum.
Temos
uma dívida ecológico-integral formada pela
fragmentação de nossos saberes. Cortamos a túnica
inconsútil da realidade em mil pedacinhos e os estudamos
esquecendo que eram partes do todo. Desaprendemos a re-ligar todas as
coisas e a ver o universo num grão de areia. Só
pagaremos esta dívida se aprendermos a ver o todo e a nos
reencantar.
Ao
pagar não estamos perdendo mas ganhando em vida.
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