Terça-feira, 1 de setembro de 2009 Valor Econômico
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Agronegócios
Governo propõe 'trocar' dívida por
floresta
Mauro Zanatta, de Brasília
O governo aposta em incentivos ao abatimento de dívidas agrícolas e
no uso de áreas degradadas para convencer o produtor rural a investir
na ampliação de áreas cultivadas com florestas no país. A proposta da
Secretaria de Assuntos Estratégicos também cria alternativas para
questões de mudanças climáticas, como pagamento por serviços
ambientais, e de produção de energia a partir de fontes renováveis. O
Programa Nacional de Floresta Plantada, em debate no governo, prevê
dois modelos para a quitação da dívida rural dos produtores por meio da
emissão de títulos lastreados em florestas plantadas ou da venda futura
de créditos de carbono.
Pela proposta, os débitos rurais, estimados entre R$ 36 bilhões e R$
130 bilhões, seriam equacionados com a constituição de sociedades de
propósito específicos (SPEs) controladas por fundos compostos por
produtores, indústrias de papel e celulose e outros investidores. Outra
opção seria formalizar parcerias de longo prazo entre produtores e
indústrias para a securitização de recebíveis das dívidas de produtores
em mercado secundários. "Precisamos de terra para plantar, usar áreas
degradadas e trocar dívidas pelo plantio de florestas", diz o ministro
interino de Assuntos Estratégicos, Daniel Vargas.
Os "sinais do mercado", segundo ele, são de forte demanda no longo
prazo. Vargas afirma haver concordância de produtores e ambientalistas
em relação à troca de dívidas. "É um projeto "ganha-ganha" e está muito
avançado no governo". Os benefícios ambientais seriam relevantes. As
reservas naturais do país em florestas plantadas, avalia, poderiam
crescer dos atuais 5,3 milhões para 27 milhões de hectares em 2050. E a
fixação de gases causadores do efeito estufa superaria 6 milhões de
toneladas de CO2 até lá. A expansão dessas florestas em áreas
degradadas poderia ocupar 13 milhões de hectares adicionais até 2050.
Os estudos da SAE mostram que o mercado internacional de madeira e
derivados passaria dos atuais US$ 230 bilhões para algo entre US$ 560
bilhões e US$ 840 bilhões até 2020. "É um colosso de recursos para
aproveitar. Hoje, temos apenas uma fatia de 3,2% disso. Só para manter
nossa participação, teríamos que dobrar a produção no futuro", diz
Vargas. A receita bruta da indústria, segundo projeções, saltaria de R$
30,6 bilhões, em 2009, para R$ 168,5 bilhões até 2050. A arrecadação
direta de tributos poderia aumentar sete vezes, para R$ 60 bilhões, e a
geração de empregos passaria de 710 mil para 1,6 milhão de vagas
diretas.
A equipe da SAE tem mantido conversas reservadas com
BM&F-Bovespa, Banco do Brasil, Ministério da Fazenda, Banco
Central, Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e empresas de base
florestal e siderúrgicas para acertar os detalhes dos modelos do novo
programa. O governo aposta em um mercado "sólido, crescente e
comprador" no longo prazo.
Parte dos ambientalistas vê como positiva a iniciativa do governo.
"Finalmente, começamos a cruzar a política de crédito agrícola com as
políticas ambientais. Resta ver se haverá o vínculo mais importante,
que é a regularização", diz Ana Cristina Barros, representante da The
Nature Conservancy (TNC) no Brasil. Embora não tenha detalhes da
proposta nem tenha sido consultada, a dirigente da ONG argumenta ser
importante a criação de estímulos à regularização das propriedades,
como o cadastro rural e o reflorestamento de áreas de Reserva Legal
(RL) e de Preservação Permanente (APP).
O abatimento de dívidas em troca do cumprimento do Código Florestal,
porém, é polêmico. Na avaliação de parte da sociedade civil, trata-se
de "recompensar" aqueles que não cumpriram a lei. A TNC rejeita essa
posição. "Estamos falando, na verdade, de algo adicional, de uma
remuneração por serviços ambientais prestados", diz Ana Cristina,
referindo-se à regulação do clima e à manutenção da água, entre outros
pontos, garantidos pela floresta de pé. "Não vejo problema em pagar
para a regularização. O governo não pagou para recolher armas ilegais?
Por que não pode pagar para as florestas?"
A proposta do governo soa bem aos ouvidos de especialistas. A
produção da indústria de base florestal cresceu 6% ao ano nos últimos
15 anos e precisa elevar a base produtiva para atender à crescente
demanda. O preço da madeira registrou valorização de 250% desde 2000.
Os estímulos ao produtor são atraentes.
"É um investimento sem vínculo com ativos financeiros, elimina
problemas de armazenagem e dá ganhos de apreciação da terra", resume o
consultor Marco Tuoto, da paranaense STCP Engenharia de Projetos. Mas
há desvantagens. "O período de maturação é longo, resulta em baixa
liquidez e imobilização de ativos, como a terra". O modelo serviria
melhor, diz, para produtores das regiões Sul e Sudeste do país, além do
sul do Nordeste. O eucalipto demora sete anos para maturar. O pinus
leva entre 18 e 20 anos e a teca, de 20 a 25 anos. Incentivos como
adiantamentos de recursos para plantio e certificação e monitoramento
da produção seriam importantes para estimular a entrada de produtores
rurais no negócio. (Colaborou Bettina Barros, de São Paulo).
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